Disseminando gentileza nos encontramos no tempo da delicadeza...

5 de mar de 2009

Ah se ela dissesse


A primeira vez que ela apareceu, flor do meu acaso, ficou determinado nas tábuas de lei, lá dos céus, o inicio do cisma entre meu passado de incertezas e o futuro improvável, embora ainda não soubéssemos que estávamos na chuva e ela iria nos molhar. Até o dia em que ela surgiu dançando o baile imaginário, numa saia de conteúdo improvável e sem nenhuma certeza estatística de que aquilo era de verdade e não uma ilusão de óptica, uma epifânia de quem não
tragou e não duvida da fé.
Mas eu a vi na retina cansada destes olhos meus que, um dia, ainda muito distante, a terra há de comer, sem o sentido bíblico da coisa com a qual eu a devoraria, e senti o abalo nas minhas placas tectônicas, o sismo na minha abissal fossa sentimental. Desde então tudo que era ilegal, imoral ou que engorda, a metafísica, a oratória e o perfil do colesterol mudaram ao sabor dos seus encantos e do arco-íris de seu riso. Mas como tudo que me acontece além da linha do horizonte, não sai como rezam as lendas e o horóscopo chinês, ela deixou meu coração no bung-jump existencial, oscilando como um samurai bêbado, num haraquiri de fazer inveja a piloto japonês.
Ah, mas se ela soubesse que, desde aquela vez, em que veio ao meu mundo tal qual uma Eva, sem a parreira, e viu a maçã virar sobremesa, eu dividiria o universo em dois hemisférios, abaixo e acima do seu piercing no umbigo. Ah se ela dissesse que é louca por mim e que ficaria no meu corpo feito tatuagem pra me dar coragem de seguir viagem e outras canções. Ah se ela dissesse que é louca por mim e batesse a porta do seu casulo para nunca mais voltar e fizesse comigo uma casa no campo. Eu juntaria as mãos para o céu e agradeceria por ter alguém que eu gostaria que andasse comigo na rua, na chuva, na fazenda e na casinha de sapê, que a vida nada mais é do que esse velho cantar de ilusões.
Se ela soubesse que por ela eu aprenderia uma nova língua, decifraria os sinais de fumaça, comeria manga com leite e mudaria a ordem das constelações celestes para que seu riso passasse a orientar os navegantes solitários como eu. Se ela soubesse que pularia de para- quedas e contaria a história do mundo no seu ouvido feito uma Sherazade online e com segundas intenções, para garantir que funcionaria regularmente por ser sábado e outros dias da semana, por mais que mil, por todas as noites de minha vida, perdido no pôr-do-sol dos olhos dela que acontece todos os dias entre lugares tão distantes como a primavera e o verão,
o pólo norte e sul, o equinócio e o solstício.
Por ela aprenderia a dançar, o nome das flores, cavalgaria o minuano, andaria sobre os telhados e por seu beijo removeria montanhas e iria a Maomé e a tornaria meu orixá regente. Só por ela, tão linda, tão linda, tão linda, que confunde meu sono e sonho, eu desviaria a rota dos cometas e a hora de Greenwich.
Eu faria tudo diferente, sem meter os pés pelas mãos.
Ah! Eu acordaria. Mas só se ela dissesse,
se ela dissesse, que é louca por mim...
****
Considero todos os textos desse amigo de muita sensibilidade e ternura. Toques de amor, alegria, ira( por que não?), sensualidade, desejos, mas esse texto além de ser uma leitura extremamente gostosa, leve ela traduz exatamente a nossa espera pelo passo do outro. Aquela coragem contida, escondida, segredo de sete chaves à espera de um primeiro passo. O passo do outro!
Então...ah então, quem sabe, enche-se de coragem e solta-se o grito: eu te amo!
Parabéns meu amigo Cesar, por colocar em palavras tanta emoção, tanto da alma desse velho mundo humano!

10 comentários:

  1. Que bela escolha!
    O César escreve coisas lindas!
    Já visitei o blog dele, e viz uma leitura completa de tudo que ele tem por lá... Verdadeiros tesouros!

    Parabéns amigos!
    Parbéns Cris!
    Lindo mesmo!

    Beijos

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  2. És madeira verde
    Ou apenas mulher perdida
    Testemunha de berço feito de penas
    Arca perdida da dor contida

    Tudo isto é universo
    Em límpida poça de água
    Onde as conchas têm a forma de coração
    Onde o sal afasta a mágoa

    A ti que és especial
    convido-te a partilhar comigo o “sítio das conchas azuis”

    Bom fim de semana


    Abraço

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  3. Cris, gostei muito da tua postagem e fico muito satisfeito com a tua bela estréia no amigos, ótimo poema de César que ainda vou visitar. Beijo

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  4. Hoje decidi visitar todos os blogs que acompanho.
    E é com imenso carinho que
    venho lhe desejar um belo final de semana

    Um abraço carinhoso

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  5. Lindo texto, mas por vezes ficamos á espera quando devemos ser nos a falar
    Barabens ao cesar e á cris pela escolha e palavras de carinho que deixou escritas
    Bj aos dois

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  6. Tens uma rara elegancia na tua escrita...


    Abraço

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  7. Ei... posso eu fazer parte desta galeria?




    Novo Dogma:
    queReres...


    dogMas...
    dos atos, fatos e mitos...

    http://do-gmas.blogspot.com/

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  8. Fabuloso texto, tão cheio, tão cheio, tão cheio de amor.

    Parabéns.

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